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BOLETIM Nº 2146 - CELEBRANDO A HISTÓRIA: AS BASES DE NOSSA IDENTIDADE
Pr. Jorge Pinheiro dos Santos | 01/11/2009

Introdução

Nestes 400 anos de aniversário da origem do movimento batista naInglaterra, muita gente nos pergunta o que é um batista, qual é sua origem e oque caracteriza seu pensamento teológico. Então, resolvi falar sobre nossaidentidade, origem e teologia. Mas vamos fazer isso, analisando o que éuma Reforma religiosa e qual a sua base bíblica. Vamos, então aos textos de2Reis 23.1-3.

O rei Josias ordenou que todas as autoridades de Judá e de Jerusalém se reunissem com ele, eeles foram todos juntos até o Templo, acompanhados pelos sacerdotes, pelosprofetas e por todo o resto do povo, tanto os mais importantes como os maishumildes. Então o rei leu diante deles todo o Livro da Aliança que havia sidoachado no Templo. Ele ficou perto da coluna real, em pé, e fez com Deus, o SENHOR, uma aliança pela qual eles lhe obedeceriam e guardariam as suas leis emandamentos com todo o coração e com toda a alma. E também cumpririam tudo oque a aliança mandava fazer, como estava escrito no livro. E todo o povoprometeu cumprir a aliança”.

O pano de fundo desse acontecimento foi o reinado de Manassés (696-642 a.C), que capitulou àinfluência de Canaã, trouxe uma imagem da deusa Aserá para dentro do Templo deJerusalém e levou o povo a adorar a Baal. Assim, a religião do Deus único foiabandonada, esquecida a Lei de Moisés e quebrada a Aliança de Deus com seupovo. Foi um tempo de idolatria e pecado. Mas após a morte de Manassés, Deuslevantou um homem que tinha percepção da majestade de Deus. E Josias deu inícioa uma Reforma (2Rs 22,23), que teve em 628 a.C (2Cr 34.3) e recebeu novo impulso com adescoberta do Livro da Lei em 621 a.C (2Rs 22.8).

E no texto, acima, vemos em que consistiu a Reforma:adoração do único e verdadeiro Deus, volta à Palavra de Deus e respeito àAliança. E, assim, Josias ficouperto da coluna real, em pé, e fez com Deus, o Senhor, uma aliança pela qualeles lhe obedeceriam e guardariam as suas leis e mandamentos com todo o coraçãoe com toda a alma. E também cumpririam tudo o que a aliança mandava fazer, comoestava escrito no livro. E todo o povo prometeu cumprir a aliança.

Dessamaneira, aprendemos que uma Reforma se torna necessária:

(1)quando a Igreja do Senhor é mergulhada na idolatria, porque seus líderes sesubmeteram aos poderes dos Estados e capitularam às suas culturas e costumes,

(2) abandonarama Sua Palavra e a substituíram por tradição de homens, e

(3)desobedeceram à Aliança, ao Testamento que Deus lhes entregou.

Mas éo próprio Deus quem levanta homens e mulheres e escolhe o momento para que talReforma seja feita!


Os pilares da Reforma protestante

“Mas agora Deus já mostrou que omeio pelo qual ele aceita as pessoas não tem nada a ver com lei. A Lei deMoisés e os Profetas dão testemunho do seguinte: Deus aceita as pessoas pormeio da fé que elas têm em Jesus Cristo. é assim que ele trata todos os quecrêem, pois não existe nenhuma diferença entre as pessoas. Todos pecaram eestão afastados da presença gloriosa de Deus. Mas, pela sua graça e sem exigirnada, Deus aceita todos por meio de Cristo Jesus, que os salva. Deus ofereceuCristo como sacrifício para que, pela sua morte na cruz, Cristo se tornasse omeio de as pessoas receberem o perdão dos seus pecados, pela fé nele. Deus quismostrar com isso que ele é justo. No passado ele foi paciente e não castigou aspessoas por causa dos seus pecados; mas agora, pelo sacrifício de Cristo, Deusmostra que é justo. Assim ele é justo e aceita os que crêem em Jesus. Deusofereceu Cristo como sacrifício para que, pela sua morte na cruz, Cristo setornasse o meio de as pessoas receberem o perdão dos seus pecados, pela fénele. Deus quis mostrar com isso que ele é justo. No passado ele foi paciente enão castigou as pessoas por causa dos seus pecados; mas agora, pelo sacrifíciode Cristo, Deus mostra que é justo. Assim ele é justo e aceita os que crêem em Jesus”. Carta aos Romanos 3.21-26.

águas rolaram, séculos sepassaram e, no primeiro século de nossa era, o cristianismo começou umarevolução que mudaria o mundo, a partir de um pequeno grupo de pessoas naPalestina. Impôs-se em oposição à cultura religiosa do seu tempo, o judaísmo, eem oposição ao poder do Império Romano. Proclamou o Cristo, o verdadeiroMessias, e afirmou ser ele o verdadeiro Deus, o único Senhor a quem devemosprestar culto.

A igreja caminhou assim até o anode 313, quando Constantino, que se fez imperador, iniciou uma política decooptação dos cristãos. Ele ofereceu à igreja proteção contra as perseguições, masexigiu que ela validasse a política de seu  governo. A partir deste momento a história daigreja e os interesses do Império Romano se fundiram. A submissão ao ImpérioRomano, sua cultura e costumes levou em poucos séculos à idolatria, ao culto àMaria, mãe de Jesus, e aos santos, ao abandono da Palavra de Deus, que deixoude ser lida e estudada pelos fiéis e foi substituída pela tradição dos dogmas,das bulas papais, e do Magistério, e até as ordenanças de Jesus – o batismo e aCeia do Senhor – foram deturpadas.

Mas, muitos cristãos nãoconcordaram com a degeneração do cristianismo, e em diferentes regiões daEuropa surgiram vozes que clamaram pela volta ao Evangelho verdadeiro, masforam sufocadas através do martírio e da Inquisição. Eram milhares essescristãos que desejavam uma volta radical do cristianismo dos primeiros séculos.

No início do século XVI, a situação chegou ao seu limite. A igreja católica coma finalidade de levantar recursos para as obras da Basílica de São Pedro emRoma, que começou em 18 de abril de 1506, e foi feita sobre o antigo templodedicado ao apóstolo Pedro, passou a vender indulgências. Ou seja, abandonou asalvação pela graça e adotou a teologia de que o ser humano pode ser salvopelas obras.

E foi em protesto à decadência daIgreja católica, maior denominação cristã, que se levantaram o mongeagostiniano Martinho Lutero, na Alemanha; o padre Ulrico Zwinglio na Alemanha eSuíça e o humanista João Calvino na França. Eles foram os pais da Reformaprotestante mo século XVI.

O estopim da Reforma detonou quandoLutero no dia 31 de Outubro de 1517 afixou 95 teses nas portas do CasteloWittenberg. Sua idéia era gerar uma discussão acadêmica sobre o assunto sobreos desvios da Igreja católica romana. Não pretendia se rebelar contra ela, maspor falta de habilidade política por parte da própria igreja romana, Luterodesencadeou um movimento como nunca houvera na Alemanha e depois na Europa.

E, assim, a Reforma levantou questões basilares da fé cristã que tinham sidoabandonadas: (1) a supremacia da fé sobre as obras; (2) a supremacia dasEscrituras sobre a tradição; (3) a supremacia da graça sobre a lei; (4) SóCristo salva o pecador; (5) e o sacerdócio universal doscrentes.


A Reforma batista

Estou muitoadmirado com vocês, pois estão abandonando tão depressa aquele que os chamoupor meio da graça de Cristo e estão aceitando outro evangelho. Na verdade nãoexiste outro evangelho, porém eu falo assim porque há algumas pessoas que estãoperturbando vocês, querendo mudar o evangelho de Cristo. Mas, se alguém, mesmoque sejamos nós ou um anjo do céu, anunciar a vocês um evangelho diferentedaquele que temos anunciado, que seja amaldiçoado! Pois já dissemos antes erepetimos: se alguém anunciar um evangelho diferente daquele que vocêsaceitaram, que essa pessoa seja amaldiçoada! Por acaso eu procuro a aprovaçãodas pessoas? Não! O que eu quero é a aprovação de Deus. Será que agora estouquerendo agradar as pessoas? Se estivesse, eu não seria servo de Cristo”. Gálatas1.6-10.

Mas a Reforma protestante não foià raiz, pois acreditava que a Igreja Católica Romana podia ser reformada. Jámilhares de outros cristãos diziam que a Igreja Católica não podia serreformada, porque tinha caído na apostasia. Muitos dos fiéis católicos eramsinceros e, nesse sentido, cristãos equivocados na sua fé, mas a hierarquia, aestrutura da Igreja Católica não mudaria. Era necessária, então, uma Reformaque fosse à raiz.

E por crer na Reforma docatolicismo, os protestantes reformados não abandonaram todos os erros docatolicismo. Aceitaram vários deles, como a submissão aos Estados nacionais, àssuas culturas e costumes; a estrutura hierárquica da igreja; o batismo decrianças, que não têm ainda consciência do bem e do mal, da necessidade de arrependimentoe da aceitação pessoal de Jesus como Senhor e Salvador; a Ceia do Senhor comotransmissora de graça e não como acontecimento memorial, de lembrança dosacrifício vicário de Cristo.

Menos de um século depois, naInglaterra, um grupo de crentes de vinha do anglicanismo, através do movimentopuritano, opositores dos erros das denominações católica, luterana e anglicana,em 1609, se exilou na Holanda. E lá travou contato com cristãos que levantavama bandeira de uma Reforma que fosse à raiz, que voltasse ao Evangelho e àIgreja dos primeiros séculos. E assim esse grupo de crentes travou contato coma história de homens e mulheres que através dos séculos foram fiéis ao único everdadeiro Deus, à sua Palavra e ao Testamento que nos foi entregue por Jesus eos apóstolos. Mais tarde, de volta à Inglaterra, John Smyth e Thomas Helwys(1609-1612) iniciaram o movimento batista.

John Smyth, Thomas Helwys eGuilherme Dell lançaram na Inglaterra as bases históricas da reflexão teológicabatista. Mas questões basilares levantadas pela Reforma protestante, por fazerparte da tradição neotestamentária, como as bandeiras da autonomia da igrejadiante dos poderes; e da Bíblia como única base de regra de fé e conduta, foramreivindicadas e adotadas pelos batistas. E compreensões teológicas expostas porLutero, Calvino e Zwinglio, mas também pelos movimentos anabatistas, puritanose metodistas foram considerados corretos pelos batistas.

E, assim, o pensamento batista se consolidou, apesar das diferenças culturais ehistóricas, em base aos princípios da liberdade de pensamento e de expressão,que se traduziram numa eclesiologia predominantemente congregacional, deautonomia da igreja local, e os princípios teológicos da salvação pela graçaredentora de Cristo através da obediência na fé, e da Bíblia como normativa emquestões de regra e fé.

Os batistas ingleses herdaram ênfases teológicas, que depois foram levadas àscolônias norte-americanas. Entre elas podemos citar: (1) dos movimentos históricosdissidentes do catolicismo e dos anabatistas, a Palavra de Deus como fonteexperimentada pela iluminação do Espírito Santo; a regeneração necessária paraa vida nova; a igreja como associação voluntária de santos; e a completaseparação entre a igreja e o estado; (2) de Lutero, a teologia cristológica; apredestinação dos eleitos; a igreja como comunidade dos santos em Cristo; (3)de Calvino, a Bíblia como suprema autoridade e a doutrina da predestinaçãodupla e incondicional -- embora os batistas gerais não a aceitem; (4) deZwinglio, a interpretação normativa da Bíblia; o pecado como doença moralperdoável a qualquer tempo; e a salvação pela razão.


A identidade batista

Podemos, então, responder àpergunta inicial: o que é um batista e qual a sua identidade bíblica e teológica?

(1) A identidade batista tem por base a reivindicação de umahistória de séculos, de cristãos que serviram a Cristo com autonomia diante dospoderes dos reinos do mundo romano, oriental e europeu e das expressõesreligiosas cristianizadas que se atrelaram aos Estados e governos de cadaépoca.

(2) Tem por base a compreensão deque durante toda a sua história, homens e mulheres de fé deram suas vidas paraviver segundo aquilo que a Bíblia apresenta como regra de fé e conduta.

(3) Tem por base a compreensão deque, historicamente, os batistas se organizaram pela primeira vez, como igrejapública e instituída, em 1609. E que esses primeiros batistas denominados,entre os quais John Smyth e Thomas Helwys na Inglaterra e Holanda, sem serem osfundadores de nossa fé, nos mostraram o padrão batista: a autonomia em relaçãoaos poderes do mundo e a Bíblia como regra de fé e conduta, ainda que issosignifique prisão ou morte por Cristo e pela doutrina dos apóstolos.

(4) Tem por base a liberdade de pensamento e de expressão religiosa que osbatistas ingleses e norte-americanos defenderam para as suas sociedades,ajudando a construir nações que foram impactadas pela fé cristã.

(5) Tem por base a unidadeeclesiológica e a unidade ao redor da doutrina dos apóstolos, sem imporuniformidade litúrgica ou cúltica. Tem por base a diversidade que nasce dapluralidade cultural.

(6) Tem por base a origemmissionária da fé batista no Brasil, através do trabalho de brasileiros enorte-americanos que deram suas vidas pela evangelização desse país.

(7) Tem por base o desafio quetemos para, a partir de nossa história, reconhecendo nossa tradição, apresentaruma igreja batista que sem deixar de ser conservadora e histórica, apresentar oCristo vivo e salvador aos brasileiros do século XXI.

Dessa maneira, ser batista é (1) tera Bíblia como única regra de fé e conduta. E entender que foi escrita porhomens movidos pelo Espírito Santo, e que sua autoridade está acima datradição, dos concílios e do magistério de qualquer igreja. (2) é professarJesus Cristo como Salvador pessoal e dar testemunho dessa fé através do batismobíblico em nome da Trindade de Deus. (3) é fazer parte de uma igreja local,autônoma em relação aos poderes desse mundo, religiosos e do Estado. é entenderque a igreja local é assembléia que se reúne para adoração, proclamação,edificação, comunhão e serviço.

Façam tudo paraconservar, por meio da paz que une vocês, a união que o Espírito dá. Há um sócorpo, e um só Espírito, e uma só esperança, para a qual Deus chamou vocês. Háum só Senhor, uma só fé e um só batismo. E há somente um Deus e Pai de todos,que é o Senhor de todos, que age por meio de todos e está em todos”. Carta aos Romanos4.3-6.

 

Pr. Jorge Pinheiro dos Santos

 

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